O espaço ocupado no quarto entre dois pontos demarcados: a
cama velha de quando era solteiro (tirada semana passada do sótão mofado em que
fora guardada) e a velha cômoda de gavetas emperradas, cheia de espólios da
casa dos pais: pedaços de brinquedo quebrados, cigarros escondidos, revistas
eróticas baratas, elásticos grudados no fundo, uma pasta mole, estranha e
amarelada que cria no fundo do móvel aquela sensação nefasta de pântano. No
meio de tudo isso, o vazio, ele sentado com as pernas cruzadas, olhando fotos que
insiste em mandar à papelaria para imprimir em antigo papel fotográfico, como
se assim se tornassem reais aquelas tantas outras digitais no computador, como
se o palpável fosse a ilusão da edição criteriosa que faz. Não escolhe todas,
apenas as melhores, mas quando vê quase todas são imprimíveis, são melhores, e
gasta rios de dinheiro trazendo para o mundo físico suas lembranças espalhadas
em nuvens e blogs e flickrs e álbuns virtuais. Colecionador.
E quando acaba fica aquela má-impressão, a pergunta de
criança nascida no pós 2009, como era possível se viver sem taggear,
infinitamente.
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