Antes que se indispusesse
resolveu agradar: subiu cinco andares sem elevador com um vinho nas mãos,
comprado na terrinha subtropical, guardado a revelia das noites
melancólicas para ser degustado a dois. Pediu licença no batente da porta, como
se outra vez tivesse nove anos, os calcanhares tão juntos que as pernas quase
grudavam num simulacro giacomettiano. Os olhos eram do tamanho de dois pratos,
intermináveis, sondando a escuridão do apartamento de janelas fechadas, quase
sempre, intimo e familiar que os vizinhos não invadiam. Entreouviam, vez ou
outra, as mudas notas do piano da madrugada, nesse prédio semelhante a um
exoesqueleto pré-histórico: moravam na
curva vertebral do inseto morto, imenso, desbotado contra a paisagem noturna
dessa terra do bem-virá, do se deus-quiser-há-de-acontecer. Excesso de poesia.
Melhor ligar a TV pra poesia não nos sufocar. Encontrava o
controle perdido e apontava a esmo na sala de estar bagunçada, intangível, até
a luz da tela de plasma iluminar o canto de um túnel perdido entre o expurgo da
mudança.
_ Como você pode morar nesse arquipélago de caixas?
Olhava desinteressado.
_ Vou morar onde? Dentro de uma? No mais não me incomodam,
criam uma unidade em todos os apartamentos por onde passo. Sempre que mudar haverá
caixas espalhadas pela sala e uma moldura de janelas fechadas.
Familiaridade. E mais uma vez a ausência de retratos
familiares. Nem uma foto dela o miserável guardava, nem aquela que tiraram num
dia sombrio no parque, ao pé das cerejeiras. Era como se quisesse apagá-la, ou
não se apegar, o rosto esquecido no momento que parasse de aparecer, trazer
vinho, subir as escadas, sorrir desaforadamente das suas piadas sobre dias
santos. Quando sumisse nem a memória ocuparia o lugar que seu corpo fizera
sobrar, tudo desmoronando sob uma enxurrada de falsas lembranças.
A cozinha numa neblina de água fervendo, pequena e iluminada
como um coração equatoriano no meio da casa bávara, instalada com seus
exaustores e seus fogões de acendimento automático e suas panelas de aço inox
penduradas displicentemente em armários sem porta. As portas são o consolo da
alma, assim como as paredes o são para o consolo da imaginação do vouyer: sem
elas o jogo de observar perde a graça e se automutila. Caroline sabia que a
ausência de portas na casa não era um convite ou uma boa-vinda, antes um
obstáculo que a mente do invasor cria quando nenhum outro obstáculo se interpõe.
A casa multicultural tinha uma áurea como se não pertencesse àquela Londres tímida,
cinza, obscura, nem à Londres burlesca, nem à Londres macadâmia ou à Londres xenófoba
e apátrida: aquele era um pequeno mundo de nada criado num espaço curto de
tempo, um recorte das coisas que a vida deixa, uma profusão de frases-feitas e
clichês. Aquele era o topos poético de um homem não afeito a poesias,
incompleto e instável como a marcha à morte do metrô. Era escalafobética.
Era dele. E agora era dela, enquanto colocava as coisas na
mesa de jantar da toalha de muitos respingos. Era como tinha que ser e seria
enquanto fosse, intocável, na curva do tempo, para sempre um cotidianamente
imperfeito. Era mais do que um encontro na toca de alguém não afeito a receber
visitas, era o que o rosto não demonstrava quando as luzes estavam acesas. Era
a poesia encontrada em cada esquina de cada história sem final, sem ponto, sem
forma, sem tema, sem conteúdo: era o modo de se expressar que escapava de todos
os obstáculos que a narrativa deixa.