sábado, 26 de maio de 2012

#2


Foi de repente que eu pensei e se de repente ficar cego? Se de repente meus olhos fecharem para o mundo num quarto escuro sem espaço, se as fronteiras do que eu acreditava se formarem uma mancha negra, labiríntica, se meu corpo se perder no vazio? Se de repente eu não souber mais ler, se não puder mais ler, se uma biblioteca imensa de livros até o teto e filmes e imagens e mulheres e sorrisos se fizerem sérios, e se de repente (assim, como quem sai pra tomar um café e quando volta o tempo fechou), o mundo for só meu tato, meus sons meus cheiros, minha dança espacial em torno do corpo, minha rotação em translação de tempos fixos, meu limite físico tão perto.

Se de repente, assim como quem fala.

De repente.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

#1

No tempo do quando
três crianças brincam,
na faixa de areia, à beira da praia,
no braço do mar, no tempo do quando.

Constroem o tempo,
o mundo, os monstros,
a vida de nada, as regras do pouco
do tempo do quando, quando as ondas quebram:
quando as ondas cantam.

O vendedor passeia,
o iatista passeia,
a moça passeia no tempo do quando.
Os rostos passeiam, só ficam lembranças.

crianças brincando
no tempo do quando,
três crianças correm, três crianças comem
na faixa de areia, na beira da praia,
crianças constroem o tempo dos homens.




Foto daqui.

domingo, 6 de maio de 2012

Facsímile



Antes que se indispusesse resolveu agradar: subiu cinco andares sem elevador com um vinho nas mãos, comprado na terrinha subtropical, guardado a revelia das noites melancólicas para ser degustado a dois. Pediu licença no batente da porta, como se outra vez tivesse nove anos, os calcanhares tão juntos que as pernas quase grudavam num simulacro giacomettiano. Os olhos eram do tamanho de dois pratos, intermináveis, sondando a escuridão do apartamento de janelas fechadas, quase sempre, intimo e familiar que os vizinhos não invadiam. Entreouviam, vez ou outra, as mudas notas do piano da madrugada, nesse prédio semelhante a um exoesqueleto  pré-histórico: moravam na curva vertebral do inseto morto, imenso, desbotado contra a paisagem noturna dessa terra do bem-virá, do se deus-quiser-há-de-acontecer. Excesso de poesia.

Melhor ligar a TV pra poesia não nos sufocar. Encontrava o controle perdido e apontava a esmo na sala de estar bagunçada, intangível, até a luz da tela de plasma iluminar o canto de um túnel perdido entre o expurgo da mudança.

_ Como você pode morar nesse arquipélago de caixas?

Olhava desinteressado.

_ Vou morar onde? Dentro de uma? No mais não me incomodam, criam uma unidade em todos os apartamentos por onde passo. Sempre que mudar haverá caixas espalhadas pela sala e uma moldura de janelas fechadas.

Familiaridade. E mais uma vez a ausência de retratos familiares. Nem uma foto dela o miserável guardava, nem aquela que tiraram num dia sombrio no parque, ao pé das cerejeiras. Era como se quisesse apagá-la, ou não se apegar, o rosto esquecido no momento que parasse de aparecer, trazer vinho, subir as escadas, sorrir desaforadamente das suas piadas sobre dias santos. Quando sumisse nem a memória ocuparia o lugar que seu corpo fizera sobrar, tudo desmoronando sob uma enxurrada de falsas lembranças.

A cozinha numa neblina de água fervendo, pequena e iluminada como um coração equatoriano no meio da casa bávara, instalada com seus exaustores e seus fogões de acendimento automático e suas panelas de aço inox penduradas displicentemente em armários sem porta. As portas são o consolo da alma, assim como as paredes o são para o consolo da imaginação do vouyer: sem elas o jogo de observar perde a graça e se automutila. Caroline sabia que a ausência de portas na casa não era um convite ou uma boa-vinda, antes um obstáculo que a mente do invasor cria quando nenhum outro obstáculo se interpõe. A casa multicultural tinha uma áurea como se não pertencesse àquela Londres tímida, cinza, obscura, nem à Londres burlesca, nem à Londres macadâmia ou à Londres xenófoba e apátrida: aquele era um pequeno mundo de nada criado num espaço curto de tempo, um recorte das coisas que a vida deixa, uma profusão de frases-feitas e clichês. Aquele era o topos poético de um homem não afeito a poesias, incompleto e instável como a marcha à morte do metrô. Era escalafobética.

Era dele. E agora era dela, enquanto colocava as coisas na mesa de jantar da toalha de muitos respingos. Era como tinha que ser e seria enquanto fosse, intocável, na curva do tempo, para sempre um cotidianamente imperfeito. Era mais do que um encontro na toca de alguém não afeito a receber visitas, era o que o rosto não demonstrava quando as luzes estavam acesas. Era a poesia encontrada em cada esquina de cada história sem final, sem ponto, sem forma, sem tema, sem conteúdo: era o modo de se expressar que escapava de todos os obstáculos que a narrativa deixa.


sábado, 21 de abril de 2012

Destroços no mar do caribe (a função poética da linguagem)

  
  No mais é recolher tudo que não pode ser aproveitado. As roupas para a doação, os móveis empurrados num canto da casa em que não causem problema, os objetos pessoais comprimidos em duas caixas de papelão que estão no fundo do corredor e ali vão ficar por dias, quiçá meses, até que um tropeção os delegue ao canto ainda mais sombrio da casa. Como pode, minha mãe disse, uma vida inteira caber em duas caixas de papelão? E olha que seu pai era obcecado em guardar inutilidades, fez da vida dele uma enorme coleção de tralhas. Mas no fim das contas foi largando tudo, esquecia, abandonava num lugar e esquecia que estava ali. Essas coisas, provavelmente, não são sobras de um expurgo que o alzheimer deixou, mas sim objetos esquecidos de serem esquecidos, perdido no fundo da gaveta de um quarto de uma casa  que ele habitava apenas corporalmente. Que ironia.

  Irônico também que não houvesse nenhuma foto da família, contrariando as prescrições do médico que dizia ser bom que convivesse com rostos familiares, mesmo que em lembranças e porta-retratos, ajudava a memorizar e reconhecer. Lembra do dia que entrou no seu reino de pó e escuridão, o quarto de janelas fechadas e a cama com três ou quatro cobertas em pleno verão, e viu aquele homem miúdo, tímido, atarracado, que já havia trabalhado, anos atrás (diz a mãe) como caminhoneiro levando carga do sudeste pela transamazonica. A sombra do que já foi, triste. O brilho de inteligência também, aquele brilho de humanidade no fundo foi se apagando até restar apenas névoa. O olhar dele um bloco de gelo fixo num ponto distante do quarto, na quina da cama relembrando outros tempos, outra vida ou simplesmente fazendo o exercício de relembrar como se relembra. Se tornou um ser cíclico, animal, um pedaço que o mundo deixa para trás e os netos visitam com medo na hora que chegam na casa da vó. Se tornou um destroço, em suma. Numa tentativa frustrada de o tirarem dessa letargia levavam o pai a longos passeios em lugares que, em sã consciência, nunca gostou de ir: zoológico, parques, museus de arte. Olhava sempre perdido, como se a paisagem bidimensional de uma tela retratando um lago fosse tão real quanto o lago lá fora, inalcançável, e as pessoas em volta apenas sombras. Seu pai uma sombra presa na cadeira.

  Hesita no nó da gravata de ferente para o espelho. Não o acha distinto demais, ou observa sua roupa comprada anos atrás, ele que herdou do pai esse desprendimento com o vestuário, anda com peças rotas até elas quase soltarem do corpo. Não deu tempo de comprar um terno novo, mas não acha o detalhe importante. Ou pelo menos quer acreditar, lembra quando tinha 10 anos e o pai limpando com saliva a sujeira encontrada num canto do rosto, com força, a limpeza do achocolatado uma limpeza moral no rosto do filho. Reclamava de tudo: da sujeira do rosto, das meias desconjuntadas, da calça com pequenas manchas na barra como se essas manchas, se descobertas, colocassem em xeque a integridade da família que ia jantar na casa de amigos da mãe. Olhe para essa criança, toda suja, olha como os pais deixem que ela ande. E o pai limpava, cada vez com mais força, até o seu rosto ficar vermelho e o deixava ir com uma advertência para que não corresse. Que se cuidasse. Que não se sujasse.

  As múltiplas desaprovações o fizeram crescer ainda mais desastrado do que se o tivessem deixado sozinho.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ismália.


“Quando Ismália enlouqueceu”, mas isso você já ouviu antes.

Quando Ismália enlouqueceu se trancou no quarto e a família ligou para ambulância do SAMU. Vieram os homens de branco carregando cordas grossas e uma seringa com ponta em diamante; escadas mofadas, três lances por vez: sorrateiros como ladrões. Chegaram com a força abusiva dos homens, invasora, abrindo a porta como se esta fosse feita em papel. Desfarelaram o batente de cortiça, destruíram o pequeno mundo cenográfico de estopa. Arrasaram os brinquedos da infância, amassaram as dobradiças da cama, amarraram a pobre Ismália, louca, estranha, estúpida, babando palavrões que escorriam pela boca como uma forma viva. Quando levaram Ismália o prédio inteiro assistiu por olhos mágicos e portas semicerradas. O prédio comentou e no seu intimo agradecia que levavam a semivirgem louca. Aquela que dançava. A que tocava piano altas horas da madrugada. A vadia. A semiputa. A semiartista. Levaram não só uma garota recém-adulta, recém-lúcida, recém-completa: levaram também a causa do incômodo e as incertezas que o silêncio trazia.

A vida só era estúpida em comparação àquela outra. Agora não mais.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Stalker.


O espaço ocupado no quarto entre dois pontos demarcados: a cama velha de quando era solteiro (tirada semana passada do sótão mofado em que fora guardada) e a velha cômoda de gavetas emperradas, cheia de espólios da casa dos pais: pedaços de brinquedo quebrados, cigarros escondidos, revistas eróticas baratas, elásticos grudados no fundo, uma pasta mole, estranha e amarelada que cria no fundo do móvel aquela sensação nefasta de pântano. No meio de tudo isso, o vazio, ele sentado com as pernas cruzadas, olhando fotos que insiste em mandar à papelaria para imprimir em antigo papel fotográfico, como se assim se tornassem reais aquelas tantas outras digitais no computador, como se o palpável fosse a ilusão da edição criteriosa que faz. Não escolhe todas, apenas as melhores, mas quando vê quase todas são imprimíveis, são melhores, e gasta rios de dinheiro trazendo para o mundo físico suas lembranças espalhadas em nuvens e blogs e flickrs e álbuns virtuais. Colecionador.

E quando acaba fica aquela má-impressão, a pergunta de criança nascida no pós 2009, como era possível se viver sem taggear, infinitamente.